segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Trilogia suja de Havana - Pedro Juan Gutierrez (2)

“Assim é. Como um pêndulo. Vai e volta. Às vezes releio papeis de anos atrás e sinto que esse tempo repercutiu em mim: fiquei mais sozinho. Todos ficamos mais sozinhos pouco a pouco. No caminho ficam as mulheres que amei. Os lugares onde fui feliz. Os filhos que se afastam. Os amigos. Tudo o que se tem e se perde. E que eu quis conservar e mesmo assim joguei pela janela. E me surpreendo escrevendo como se já tivesse chegado ao fim. E Deus não me ajuda a esclarecer totalmente o meu espírito para aceitar tudo do jeito que é.”

“A crise era violenta e penetrava até o ultimo cantinho da alma da gente. A fome e a miséria são como um iceberg: a parte mais importante não se vê a olho nu.”

“Eu sempre digo: um homem sem mulher é um desastre total.”

“Às vezes, quase sempre, é bom se deixar levar pela intuição e não pensar. Os preconceitos fodem com muita coisa na vida.”

“Às vezes o que se precisa é muito pouco: sexo, rum e uma mulher que fale umas bobagens pra você. Nada inteligente. Estou cansado de gente inteligente e astuta. Depois ela vai embora e você fica sozinho e tranquilo. Bebe mais rum. Ou toma uma ducha e deita pra dormir. E no outro dia amanhece fresco e descansado. Pronto para sorrir e responder que está muito bem e contente com a vida. E as pessoas dizem: ‘Ah, que bom. Afinal encontro alguém que está contente com a vida’.”

“Então estou aqui. Sem nada a fazer. Tranquilo em minha cobertura. Tomando rum nos crepúsculos. Não quis mais procurar relações intimas com ninguém. Tinham me ferido a tal ponto que não conseguia resistir a repetições. E decidi viver solitário, minha vida normal, mas sozinho. Lógico: a cada determinado tempo alguém me fascina. Alguém consegue brilhar. Gosto assim. Nada para a eternidade.”

“Bom, promiscuidades à parte, tive de continuar. Me endurecendo, claro. As pessoas achavam que eu estava madurecendo. Mas não. Só tentava ficar mais e mais duro e não permitir que me manipulassem. Cada um que se fodesse sozinho. Eu tinha que dosar muito bem o pouquinho de amor que restava dentro de mim para evitar que o tanque ficasse a zero e o motor parasse. Não perdia as esperanças de recarregar em algum lugar. Utópico de merda. Fodido, mas sonhando encontrar algo bonito dentro de mim que de novo enchesse o tanque até a boca para repetir tudo e para ser outra vez aquele sujeito generoso e bom amante. Será que você é um imbecil?, eu me perguntava às vezes. Em outras ocasiões, mais relaxado, me dizia: É, é possível.”

“Portanto eu continuava sozinho. Com meus quarenta e cinco anos. E cada dia era melhor e mais fácil. As primeiras queimaduras são as que mais doem, depois aparecem calos, como diz meu amigo Hank. Dos quarenta em diante tudo é mais simples. Ou pelo menos se vê com mais clareza.”

“Hoje estou de ressaca. O rum era asquerosamente ruim e estou com dor de cabeça. Mas mesmo assim continuo tentando ordenar minha vida interior. Na exterior não tenho problemas. Todos acreditam que existe só um Pedro Juan, muito sólido, muito eficaz e muito alegre. Não imaginam que no interior estão todos os Pedritos brigando a pescoções, passando rasteiras uns nos outros. Todos tentando botar a cabeça pra fora ao mesmo tempo.”

“Não tenho tempo nem forças pra pensar. E isso era bom. A vida precipitada, ao léu, sempre me conduziu a becos sem saída. Muitos amores loucos e absurdos, por exemplo. Sempre atormentado, correndo, entrando e saindo precipitadamente de muitos lugares. Como quem procura e não acha.
E ao mesmo tempo, vou envelhecendo. E constato que estou perdendo a capacidade de cinismo. Estou perdendo a energia e a alegria e o poder da multiplicação. Já não consigo levar as coisas com o cinismo da juventude, e queria me dar sempre bem, custasse o que custasse.”

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