“Assim é. Como um pêndulo. Vai e volta. Às vezes releio
papeis de anos atrás e sinto que esse tempo repercutiu em mim: fiquei mais
sozinho. Todos ficamos mais sozinhos pouco a pouco. No caminho ficam as
mulheres que amei. Os lugares onde fui feliz. Os filhos que se afastam. Os
amigos. Tudo o que se tem e se perde. E que eu quis conservar e mesmo assim
joguei pela janela. E me surpreendo escrevendo como se já tivesse chegado ao
fim. E Deus não me ajuda a esclarecer totalmente o meu espírito para aceitar tudo
do jeito que é.”
“A crise era violenta e penetrava até o ultimo cantinho da
alma da gente. A fome e a miséria são como um iceberg: a parte mais importante
não se vê a olho nu.”
“Eu sempre digo: um homem sem mulher é um desastre total.”
“Às vezes, quase sempre, é bom se deixar levar pela intuição
e não pensar. Os preconceitos fodem com muita coisa na vida.”
“Às vezes o que se precisa é muito pouco: sexo, rum e uma
mulher que fale umas bobagens pra você. Nada inteligente. Estou cansado de
gente inteligente e astuta. Depois ela vai embora e você fica sozinho e
tranquilo. Bebe mais rum. Ou toma uma ducha e deita pra dormir. E no outro dia
amanhece fresco e descansado. Pronto para sorrir e responder que está muito bem
e contente com a vida. E as pessoas dizem: ‘Ah, que bom. Afinal encontro alguém
que está contente com a vida’.”
“Então estou aqui. Sem nada a fazer. Tranquilo em minha
cobertura. Tomando rum nos crepúsculos. Não quis mais procurar relações intimas
com ninguém. Tinham me ferido a tal ponto que não conseguia resistir a
repetições. E decidi viver solitário, minha vida normal, mas sozinho. Lógico: a
cada determinado tempo alguém me fascina. Alguém consegue brilhar. Gosto assim.
Nada para a eternidade.”
“Bom, promiscuidades à parte, tive de continuar. Me
endurecendo, claro. As pessoas achavam que eu estava madurecendo. Mas não. Só
tentava ficar mais e mais duro e não permitir que me manipulassem. Cada um que
se fodesse sozinho. Eu tinha que dosar muito bem o pouquinho de amor que
restava dentro de mim para evitar que o tanque ficasse a zero e o motor
parasse. Não perdia as esperanças de recarregar em algum lugar. Utópico de
merda. Fodido, mas sonhando encontrar algo bonito dentro de mim que de novo
enchesse o tanque até a boca para repetir tudo e para ser outra vez aquele
sujeito generoso e bom amante. Será que você é um imbecil?, eu me perguntava às
vezes. Em outras ocasiões, mais relaxado, me dizia: É, é possível.”
“Portanto eu continuava sozinho. Com meus quarenta e cinco
anos. E cada dia era melhor e mais fácil. As primeiras queimaduras são as que
mais doem, depois aparecem calos, como diz meu amigo Hank. Dos quarenta em
diante tudo é mais simples. Ou pelo menos se vê com mais clareza.”
“Hoje estou de ressaca. O rum era asquerosamente ruim e estou
com dor de cabeça. Mas mesmo assim continuo tentando ordenar minha vida
interior. Na exterior não tenho problemas. Todos acreditam que existe só um
Pedro Juan, muito sólido, muito eficaz e muito alegre. Não imaginam que no
interior estão todos os Pedritos brigando a pescoções, passando rasteiras uns
nos outros. Todos tentando botar a cabeça pra fora ao mesmo tempo.”
“Não tenho tempo nem forças pra pensar. E isso era bom. A
vida precipitada, ao léu, sempre me conduziu a becos sem saída. Muitos amores loucos
e absurdos, por exemplo. Sempre atormentado, correndo, entrando e saindo
precipitadamente de muitos lugares. Como quem procura e não acha.
E ao mesmo tempo, vou envelhecendo. E constato que estou
perdendo a capacidade de cinismo. Estou perdendo a energia e a alegria e o
poder da multiplicação. Já não consigo levar as coisas com o cinismo da
juventude, e queria me dar sempre bem, custasse o que custasse.”

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