terça-feira, 5 de novembro de 2013

3- Trilogia suja de Havana - Pedro Juan Gutierrez







“Definitivamente, os psicólogos são sempre de classe média. Mas a classe média nunca se dá conta de nada. Por isso está sempre apavorada e quer saber o que vai bem e o que vai mal e como se pode corrigir isso e aquilo. Tudo lhe parece anormal. Deve ser terrível pertencer à classe média e querer arrazoar tudo, assim, de fora, sem molhar a bunda.”

“Sempre acontece isso com os bobos. O que lhes falta de cérebro, lhes sobra de pau.”

“Eu gostava dela desde que a vi pela primeira vez, mas não é possível se apaixonar por todas as mulheres de que se gosta.”

“A vida é assim bandida. Se a gente tem caráter forte, é intransigente e depreciativo. O rigor e a disciplina nos transformam em um sujeito implacável. Só os fracos são submissos e parasitários. E precisam do forte. E tudo sacrificam esperando alguma migalha. Sacrificam sua dignidade. Sei que é embaraçoso dizer isso em voz alta, mas a verdade é que uns mandam e outros obedecem. Eu não consigo obedecer a ninguém. Nem a mim mesmo. E isso me custa caro. Pago bem caro.”

“Bom, eu me divertia com tudo isso e não pretendia entender. É impossível entender tudo. A vida não é o suficiente para ser vivida e entendida. É preciso escolher.”

“Gosto dessa nega. Sobretudo quando ela fica um pouco em silencio. Fala bobagem e tenta ser simpática até o cansaço, e isso enche. De qualquer jeito, é só atração sexual. Só isso. Pra mim é suficiente. Fiquei com o coração empedernido e por uma mulher sou incapaz de sentir algo mais que uma ereção.”

“A expectativa destrói muitas coisas. Porém aprender a escapar dela é uma arte.”

“Cada dia gosto mais do silêncio e da solidão e não espero de mais. Não sei explicar como. Se estou rodeado de silêncio, eu sou eu. E isso me basta.”

“Gosto de gente assim. Forte. Os frouxos sempre se lamentam e choram. Os fracos acham que hoje tudo se acaba.
Na verdade é o contrário: é hoje que tudo começa.”

“Mulheres com caráter viram um manjar de coco jorrando calda quando um homem as domina bem.”

“Então me dediquei a algo mais fácil e que dá mais dinheiro. Fui ser puto. Mas com as velhas. Com as turistas. Não tenho estômago para os veados. Não mesmo. Fico violento e sinto vontade de dar porrada. Com as velhas é outra coisa. Às vezes, há velhas interessantes. O negócio é fácil. Basta botar uma camiseta sem manga. Para exibir os músculos. É só encostar num muro, perto de um hotel e pronto. As velhas com dinheiro vêm sozinhas, gulosas como moscas atrás de doce. Algumas gostam dos negros, mas têm medo deles. Acham que são ladrões e assassinos. E eu aproveito pra ganhar clientes: “ah, é, são tremendos assassinos, e muito brutos. Gostam de bater em mulher porque são filhos do diabo. Não. Não vá nunca com eles porque podem matar. Com esses pintos tão grandes arrebentam você por dentro. Eles a deixam sangrando na cama e somem com tudo que é seu. Eu conheço muitas mulheres para quem aconteceu isso.” Acreditam em tudo. Me olham horrorizadas e acreditam palavra por palavra e me pedem meu número de telefone para darem às amigas que logo virão veranear. Não vivem na realidade. Acham que todo mundo tem telefone e automóvel e come filé no almoço. Imbecis. Ingênuas, não sei. Mas eu me divertia e vivia bem, que é o importante.”

“Não tinha nada pra fazer de noite. Bom, era assim dia após dia. Nunca se faz nada. Sobravam-me cinco pesos no bolso e sentei-me no chão, encostado na beirada da porta. Dias sem tomar um trago, sem dinheiro, esperando. Esperando o quê? Nada. Esperando. Aqui todo mundo espera. Um dia atrás do outro. Ninguém sabe o que está esperando. Os dias passam. E o cérebro fica embotado. Isso é bom. O cérebro embotado é bom pra não pensar. Às vezes, penso demais e me desespero. Houve tempo em que estudei, fui disciplinado, tive objetivos para amanhã e para o ano que vem, e saí para batalhar no mundo. Depois, tudo virou sal e água e caí nessa pocilga. Uns têm sarna, outros têm piolhos ou chatos. Não há dinheiro, não há comida, nem trabalho e cada dia vem mais e mais gente.”

“Às vezes, Clotilde quer se matar. Pensou em comprimidos, em se incendiar com álcool, em se enforcar. Não se atreve. Tem medo. Mas sabe que é só questão de tempo. O medo logo passará. Já tentou de tudo. Foi à igreja. Rezou. Tentou encontrar um trabalho, mas não há. Menos ainda para uma velha magra, suja, mal vestida, com hálito de fígado apodrecido.”

“É assim mesmo. Ou a vida esmaga você ou você esmaga a vida.”

“Nunca sei o que é importante. Houve tempo em que classificava assim tudo à minha volta. Umas coisas eram importantes e outras não. Umas eram boas e outras más. Gora não mais. Para mim, tanto faz.”

“É assim que a coisa começa, mas tenho medo dessa mulata. É puta e romântica e eu gosto dela. Uma combinação perfeita demais. E nenhum de nós dois quer se complicar. Para que procurar mais confusão? Já basta a que existe.”

“No fim das contas, que fidelidade posso eu exigir? O mais infiel dos mortais.
Fechei a porta. Nos despimos devagar. Nos abraçamos e nos beijamos. Meu coração se acelerou e quase derramo uma lágrima. Mas me contive. Não posso chorar na frente dessa bandida. Penetrei-a muito devagar, acariciando-a, e ela já estava úmida e deliciosa. É como entrar no paraíso. Mas também não lhe contei isso. É melhor gostar dela a minha maneira, em silencio, sem que ela saiba.”

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