“O trem
permaneceu imóvel na plataforma durante duas ou três horas. Eu olhava pela
janela. Índios e mulatos. Mulheres bundudas e peitudas. Gente apressada. Alguns
alegres e serenos durante um breve momento. Depois ansiedade e medo. Adrenalina
e ácidos corrosivos no sangue. Não sabem o que vai acontecer e isso apavora. O subconsciente
coletivo funcionando a todo vapor: que porra sou eu?, de onde sai?, pra onde
vou?, o que está acontecendo? Câncer inesperado, infarto do coração, paralisia
cerebral, mal de Parkinson, suicídio, depressão, cirrose hepática.
Sempre acreditei
que era possível viver com ordem, equilíbrio e medida. Todos me enfiavam isso
na cabeça: escola, pais, igreja, imprensa. Pátria, Ordem e Liberdade. Egalité, fraternité, leberté. A vida é pura,
bela e perfeita. Como numa revista de decoração de interiores. Tudo se encaixa
milimetricamente e não há sujeira à vista. Nem uma simples teia de aranha
pequenininha num canto. Depois saí para a rua. Sozinho. E essas ideias se
atrapalharam. Tudo confuso. À minha volta só via desordem e desequilíbrio. Nenhuma
peça se encaixava na outra. Descobrir isso aos quinze anos é aterrador. Loucura,
pânico, caos e vertigem.”

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