“Foram os teus olhos. Apaixonei-me
por ti através dos teus olhos. Não tuas pernas, não teus quadris, não o teu
sexo. Foram os teus olhos a dissolver meus tempos tristes, vingar um passado
inteiro em que não te amei. O teu olhar anunciou-me os dias bons, contou-me dos
até então distantes milagres que nos permite o silêncio dos amantes. Por isso,
calo-me para ver-te e amar-te. E pois quando me vês, chama-me a boca ao beijo e
não mais aos verbos, chama-me o toque ao corpo e não mais aos gestos. O teu
olhar me deu o amor, e existência. Cumprindo previstos encantos dos sonhos que
guardei, devolvendo-me ao mundo e ao tempo para ser feliz. Não apenas tua boca,
não apenas tuas mãos, não somente o teu ventre; teu olhar acendeu-me para
incendiar-me nos desejos todos por saber-te minha. Foram os teus olhos a
despir-me dos medos de mergulhar nas tuas profundidades que o amar nos concede.
Foram os teus olhos. Apaixonei-me por ti
através dos teus olhos, porque são teus.”
“Sintonia acontece quando a gente põe coração um na frente do
outro fantasiados de espelho. Quando primavera e outono se apaixonam. Quando
impressão é certeza. Quando se sabe dois; ou quando se sabe o mesmo. Sincronia,
sorte, dois patinhos na lagoa. Insight, dejà vu, andorinhas que juntas fazem
verão. Acontece nos olhos que falam o mesmo silêncio, nos sorrisos que
confessam os mesmos desejos, nas vidas que costuram o mesmo momento. Sintonia é
mergulho e vôo que se abraçam. Verdade em par daqueles que se arrepiam juntos,
sentem o mesmo e bebem do mesmo poço. Sudito e rei como amantes; reino e
nobreza como amados; ressoando amores em qualquer direção, e que se encontram
em qualquer lugar. Sintonia é também doer junto, amar junto, ser inteiros, ser
um: são. Comunhão. Sintonia é canção que canto mas que só teu coração escuta.
Identidade dos suspiros, harmonia das almas, afinidade dos passos. É o jeito
manso que a vida dá para aproximar bocas que se aguardam. Sintonia é Amor
confesso nas entrelinhas do óbvio. E o óbvio se torna bem mais claro quando
olhos e coração afinados se sintonizam.”
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“Milagre: A dimensão do impossível que sabe o nosso nome e
nos visita quando à Vida nos entregamos. Ver também: merecimento.
Merecimento: A primavera após
inverno. O dia depois da noite depois do dia. Destino que se consegue carregar
nos bolsos; o inevitável diante de quem somos. O resultado das nossas ações
despido dos acessórios da contrariedade e da reclamação. As exatas matemáticas
da Alma.”
“Sou habitante de adiados sonhos, e
sou uma precariedade; um adiamento constante para ser melhor. Sofro para me
despedir até do que não me serve mais, mantendo minha quota de liberdade viva
com a ajuda de ilusões. Renunciei a esperança de ser inteiro. Eu queria um Amor
que nunca mais soube sentir. Queria qualquer coragem que me livrasse de ser
esta metade que me anestesia e me consome inteiro. Eu só tenho morrido
exatamente por não viver. Passei a achar normal não ser feliz.”
“Sabe doutor, depois que o amor se vai, o que nos mata mesmo
é não termos mais acertados destinos. Hoje sou uma angustiosa ausência de mim,
um intervalo entre o amor e o nada a que me permiti. Sou mulher sem pressas nem
vontades, não carrego mais pecados, não possuo mais virtudes. Para quê? O que
quer que cultive não florescerá. Sou a agonia de um parto que se estende pelas
madrugadas. A questão é que me tornei uma inexatidão pois, como caminhar com
estes imprecisos passos para lugares de um futuro que meu coração dispensa?!
Qual direção sabe minha própria alma? Sinto-me um incômodo para o porvir, uma
pendência para os amanhãs. Se os homens são escravos de suas direções, disto
doutor, eu estou livre. Eu me tornei apenas uma aparência, presa a si mesma e
que continua sendo. Um eco que frustrado não se realizou. Nada mais espero das
esperanças doutor, e meus sintomas são as únicas coisas que sinto. Ausente isto
e não sentiria mais nada. Talvez fosse melhor. O meu sorrir é a minha mais
sincera farsa; padeço de mentirosas possibilidades. Sofrer é o único sincero
oficio que aprendi quando amor se despediu. Vivo por uma ingerência do tempo,
um descuido da vida que se esqueceu de me esquecer. Queria um vício qualquer
para me ocupar sabe? A me dar preocupações que me prendessem em algo e evitar
que eu me perca diluído em mim. Acontece doutor, que o cigarro nem pra ter a
decência de acender. O álcool nem pra derrubar minha atarantada lucidez. Ando
bebendo a vida a conta-gotas para ao final derramar o que restou. Nem vocações
para fantasma ando tendo. Salve-me doutor, pois nem o espelho reflete mais o
que me tornei...”
“Há em nós a lucidez dos loucos, mas não daqueles loucos tão
comuns que habitam este mundo em cada esquina. Somos da quota de loucos que não
aceitaram suas prisões e que não entraram por liberalidade em suas gaiolas. Que
não se amarraram ao outro com suas correntes. Somos da fração da loucura que
abriu mão do dia-a-dia, do seu mais do mesmo. Há em nós a rebeldia dos que não
se contentaram com o peso da realidade e abriram as novas portas -e as ideias-
em busca de alcançar o horizonte...”
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“Enraizados no ontem
das nossas escolhas, custa-nos mover o mundo para habitarmos outro mais feliz,
abandonando o que não nos serve mais. Enquanto a vida nos aponta repetidas
razões para escolhermos o novo e com ele o risco de sermos felizes, preferimos
nos apegar às justificativas e pretextos que criamos para nos mantermos no mais
do mesmo e não sairmos do lugar. Vivemos presos à mesma ideia de que ainda
poderemos ser felizes com o que não dá mais certo. Custa-nos tempo, energia e
até equilíbrio para perceber que certas relações são hábitos e costumes, e o
"amor", palavra oca na boca dos que repetem para anestesiar infelicidades
e acreditar que mantém suas escolhas porque deliberadamente querem, não pelo
medo dos vazios, carências e milhares de boas desculpas com que nos convencemos
a ficar onde estamos, não arriscando nossos empoeirados confortos, nossa
felicidade bem arrumada, nosso planejado fim de semana. Queremos a felicidade
tendo medo de ser feliz. Um dia, medi os pesos e pesei as vantagens de ser
feliz. Hoje sinto o gosto da liberdade.”
“Deveria ser proibido versarmos sobre
liberdades e levezas enquanto não praticássemos os nossos perfumados e
arrumadinhos verbos e quase sinceras frases de efeito. Deveríamos viver presos
às nossas verdades sem chance nenhuma de qualquer fuga parcial, adiamento ou
distração. Quem sabe, imersos e sufocados por inteiro e de uma só vez,
sairíamos correndo das nossas prisões como quem desesperado busca o ar pra
respirar. Quem sabe doer inteiro e não em doses homeopáticas seja a lembrança
de que a felicidade não pode ser um placebo, tampouco parcelada. Por ora e
enquanto não encaramos o espelho, o medo e o outro, pagamos os nossos pecados
por sermos menos, ao mesmo tempo em que criamos outros pecados mais para pagar.”
“Amor, tenho urgências para dormir contigo. Sim, dormir para
ganhar verdadeiras intimidades com teu corpo, com tua alma e com a tua
despretensiosa e entregue horizontalidade. Preciso dormir contigo para
despertar outras dimensões e vontades de ser teu. Quero dormir contigo para
daqui em diante não mais te procurar no meu sonhar; desejo o descanso daquele
que encontrou. Suplico para que durmamos juntos para ser contigo versão de mim
que desconheces, a de que sou Amor mesmo em repouso; que embora inconsciente,
sou resoluto e lúcido Amor. Logo eu, versado na arte dos descansos, contigo
ainda não fiz dueto. Preciso dormir contigo para que esta seja minha
incondicional rendição, quando desnudo dos medos e de mim próprio, permanecer
tão-somente Amor para tuas presenças. Se fazer amor contigo é declaração de
intensas sonoridades, quero agora me declarar para ti deitada sobre os silêncios.
Preciso dormir contigo para, na verdade, adormecer as despedidas e, do outro
lado da noite, saber você comigo nos dois lados de mim.”
“Você vem até aqui buscar por palavras que te aliviem das
inevitáveis e acumuladas tristezas da vida. Você quer palavras que interpretem
teus sonhos e revelem os propósitos da tua existência. Você procura por
palavras que definam os indefinidos e indefiníveis dentro de ti. Você quer
palavras em que identifiques o mapa dos teus interiores labirintos. Você anseia
por palavras e previsões do teu próximo Amor ou o segredo e chave das tuas
prisões. Palavras que serenem marés, tenham tons de milagre ou inovadoras
percepções sobre os teus amanhãs. Você precisa de palavras como distração das
ansiedades. Palavras que te salvem e que te curem. Que te confessem sem você
precisar dizer nada. Você quer a sabedoria que em si mesma nunca encontrou. Por
isso escrevo, para tentar salvarmos a todos nós, dissolvidos nos romances e nas
entrelinhas. Você quer uma poesia além das páginas, no contorno dos teus
caminhos. Eu também; eu busco o mesmo que você. Quem sabe um dia eu encontre
entre tantas linhas, aquelas que saibam o nosso nome.”
“Como não sabemos o valor do que mora
dentro; como não nos ensinaram a enxergar o que somos e quem realmente somos,
através dos olhos dos outros nos reconhecemos. O nosso valor então, deixa de
ser intrínseco e se torna fluído numa precária verdade, por aquilo que
vestimos, pelo carro que compramos e pelo que demais ostentamos. A nossa medida
é dita pelo que temos e não pelo que somos; coisa que ninguém, além de nós
mesmos, podemos saber. A riqueza é mero reflexo da superfície; frágil por
sinal. Assim, um sopro, um elogio ou uma crítica sempre nos atingirá e nos
balançará, sejam elas sinceras ou não. Bem aventurados aqueles que fecharam os
olhos e então souberam quem realmente são, para além das coisas do mundo.”
“Sou meus cigarros à sua espera; sou
meu café e mais dezenas de canais sem nada demais e que não me distraem. O que
me resta hoje é uma madrugada infinita, insone e triste; em que vou preenchendo
meus vazios e cultivando minha desmedida aflição, sem tuas palavras a me falar
sobre a vida, sem tuas cores a brilhar os meus olhos, sem tua música para os
meus ouvidos. Pois era você quem tanto se fazia presente aqui dentro a me
distrair da vida lá fora. Tantos anos contigo e desde o começo você me
encantou. Não te namorei porque isso era impossível, você bem sabe. O tempo
passou e incontáveis foram os meus sorrisos, minha inteira entrega e fiel
devoção. Os muitos problemas que tivemos nunca diminuíram minha admiração ou
minha atração por você. És sedutora como jamais pensei que pudesses ser. E
entre altos e baixos, agora era demais. O teu silêncio tornou minha casa
insuportável. Tua ausência denunciou que eu não sei mais o que fazer longe de
ti. Se você não retornar até amanhã, não saberei dizer o que será de mim, ou
dos meus dias seguintes. Vou ligar para quem deva ouvir meu desespero. Gritar
minhas ruínas. Exigir o tempo que não volta mais. A minha internet sem conexão.
O atendimento ao cliente é péssimo.”
“Pois bem! Paremos então de ser movidos por romances como se
na vida nós só nos movêssemos por eles. Paremos de ser romanticóides! A vida na
sua própria realidade já contém a quota de poesia necessária aos olhos e à
própria vida. Não precisamos viver de livros de banca de jornal, novela das
oito ou de escritoras-pop pra consumir e ter aquilo que não temos. Não
precisamos acreditar na ideia de que só seremos inteiros dizendo sim no altar
ou num cavalo branco a nos levar em direção a ideia de um amor-eterno. O mundo
está recheado de amor-eterno que no dia seguinte se torna outra coisa. E não,
não há erro nem pecado em desfazer os laços e escolher com outro a versão mais
nobre de si. As nossas escolhas diariamente nos definem; ainda que sejam as
mesmas. Não precisamos aceitar que a nossa vida é cinza porque não se sente
borboletas no estômago ou porque não somos correspondidos. A angústia e o vazio
nascem por acreditarmos em histórias pra boi dormir e idealizar a vida como
pano de fundo para nossos romances com finais felizes de príncipes encantados.
A vida não é isso, a vida não é só isso. Ela vai bem além. E o Amor, o Amor é outra coisa.”
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Ah, que delícia encontrar isto aqui. Que delicadeza esta da Pri. Sorrisos.
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