"No meu jeito de ver, tudo foi por água abaixo com a Segunda Guerra
Mundial. E não só as artes. Até os cigarros não tem mais o mesmo gosto.
Tamales. Chili. Café. Tudo é feito de plástico. O rabanete não tem mais
aquele sabor acentuado. Você descasca um ovo e, invariavelmente, o ovo
sai grudado na casca. As costelas de porco são pura gordura e cor de
rosa. As pessoas compram carros novos e mais nada. Essa é a vida delas:
quatro rodas. As cidades só ligam um terço da iluminação
pública para poupar eletricidade. Os policiais distribuem multas que
nem loucos. Os bêbados são penalizados em somas atrozes, e quase todo
mundo que bebe um pouco fica bêbado. Os cães devem ser contidos por
coleiras, os cães devem ser vacinados. Você precisa ter uma licença de
pesca para pescar peixe-rei com as mãos, os gibis são considerados
perigosos para as crianças. Homens assistem a lutas de boxe sentados em
suas poltronas, homens que nem faziam ideia do que era uma luta de boxe,
e, quando discordam de uma decisão, escrevem cartas vis e clamorosas
aos jornais, em indignado protesto.
E contos: não há nada: nenhuma vida (...)"
obs:25 de agosto de 1954
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