quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

DOIS MINUTOS DE SILÊNCIO - Mário Bortolotto


Ele
aguentou ela falando de ioga, krav magá e tratamentos terapêuticos
Ela
aguentou ele falando com pavor de exames de toque retal
e tentando forçar um elogio para o tamanho do seu pau
Ele
aguentou as suas amigas histéricas nos piores bares hipsters falando de regenerador celular com pepino e lifting
Ela
aguentou ele e seus amigos estridentes em bares execráveis com telão gritando em jogos da porra do seu time
Ele
aguentou ela falando coisas como “a vida não pode ser só isso”
Ela
aguentou ele trocando ideia (e em muitos momentos até concordando) com um motorista de táxi reaça
Ele
aguentou ela falando em abdução por alienígenas super desenvolvidos
Ela
aguentou ele falando da urgência de comprar um Knight XV
Ele
raspou a cabeça
e aguentou ela dizendo que assim ele parecia o Ben Kingsley interpretando o Ghandi
Ela
aguentou ele falando sobre o que ele chamava de “sortilégios do coração”
Ele
aguentou ela falando sobre réveillon em Cabo Frio
Ela
aguentou ele falando sobre montar presépio na noite de Natal
Ele
aguentou ela falando sobre Iemanjá e banhos de mar a fim de lavar as impurezas do ano que passou (foi assim mesmo que ela falou)
Ela
Aguentou a sogra falando os amigos dele falando e contando bravatas e todos os fogos de artifício e os bilhetes de corrida e as multas de trânsito
Ele
aguentou a sogra falando os amigos dela falando
e aquele Shih Tzu tarado escalando libidinosamente a sua perna

Eles aguentaram tanto ruído desnecessário
só pra que pudessem depois de tudo
ficarem simplesmente abraçados
no fim da noite, no fim do sexo
olhando para o teto que não lhes dizia porra nenhuma
naqueles inegociáveis dois minutos de silencio.

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