sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Pancho Villa não sabia esconder cavalos - Adriana Brunstein

Comece pelo meu pescoço. Evite áreas sujeitas a cócegas ou coisas deliberadamente aflitiva como língua na orelha. Tenta não ficar fazendo apologia aos meus seios com parvalhices do tipo: que bom que você nunca amamentou. Esqueça toda aquela merda de animais trepando no Animal Planet e posições de ioga que o meu corpo sedentário e inelástico não tem condições de fazer. Ombro não é nada erógeno para quem não tá numa sessão de quiropraxia. Passa batido. A falta de simetria entre os lados direito e esquerdo do meu corpo :trate como política. Declare-se de centro, fique em cima do muro mas, uma vez em cima de mim, meta um capacete amarelo na cabeça e finja que eu estou em obras. Não me faça sorrir, meu rosto fica obsceno demais e todo o resto da minha anatomia vai parecer ridículo. Não me fale de suas preferências sobre pelos quando abaixar minha calcinha, concentre-se mais em afastar meus joelhos que tendem a se atrair feito polos magnéticos opostos. Não dê nome aos bois como clitóris, vagina, ânus, use os dedos e a boca calada. Pense em qualquer pintura renascentista quando nada mais estiver cobrindo meu corpo. Há algo sagrado nisso. Agora pode me foder. 

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