domingo, 14 de abril de 2013

Partes do livro DJ – Canções para tocar no inferno, Mario Bortolotto




“O lance de ficar perambulando a noite sem destino remete diretamente a uma certa aura blues. Um troço romântico. Não era o meu caso. Eu era só um rockeiro amargurado, que havia acabado de descobrir que era um dos sujeitos mais solitários dessa porra de universo. Sempre tive notória aversão por companhia. Ainda não havia entendido que os outros também sentiam o mesmo, mas no caso deles, sua aversão se restringia apenas e tão somente a minha desagradável companhia. Estou no limiar de algo que chamam por ai de “exclusão natural”. Percebo nitidamente isso quando começo a acreditar no serviço “bem feito” dos deuses. Todo malogro que é a minha vida e essa minha obsessão em tentar me tornar íntimo, de dividir os meus problemas, de querer sinceramente acreditar que eles podem ter alguma importância para alguém de mim.”

“...Entregadores de pizza são como motoristas de táxi, ascensoristas e todo esse tipo de gente miseravelmente carente que me mantém afastado de tudo. Gente carente sempre querendo conversar, sempre querendo falar, não importa com quem. Odeio gente carente. Odeio gente que chora porque esta sozinho. O homem nasceu sozinho e passa a vida querendo se inserir. Fazer parte de algo. O grande erro da humanidade... A cidade mora dentro de mim e me regurgita e me expulsa e me mantenho longe mesmo estando dentro dela, como Jonas dentro da baleia.”

“Ah, meu caralho. Que porra eu fiz pra merecer isso? Uma puta que lê Maitena e assiste Sex and City. Vou apelar pra necrofilia. Mortos não fazem conjecturas. Se um dia já amei alguma coisa, foi esse sentimento de pânico e o alivio que sinto com ideias suicidas que jamais se concretizarão. Tem que ser muito romântico para bancar uma ideia suicida por isso permaneço no limbo quase agradável as ideia. Deito na rede confortável e me deixo estar.”

“Não. Você não faz idéia. Você já deve ter ouvido falar de demência. Mas certamente não tá ligando o nome a pessoa. Já deve ter ouvido falar de clemencia, mas certamente acha que vai encontrar algo parecido nas respostas as suas orações. O subproduto de sua filosofia barata é esse olhar forjadamente enternecido. Deixa pra lá. Sua tentativa é inútil. Seu movimento seria patético se não tivessem inventado a palavra constrangimento.”

“Todo homem merece uma garota preparando um chá. Toda a poesia do mundo consiste numa linda garota fatiando um limão em seis partes iguais. Bebi o chá pensando no vinho. Bebi seus olhos pensando em ausências e longas distancias. Algo que cantores pop chamariam de “saudade”. Fico com minha definições que nunca colocam o pé no chão, que temem o contato firme com o solo. Meus pensamentos mais pueris são revistados na alfândega .”

“Não é culpa de ninguém. É só o jeito como embaralharam as cartas.”
 
“Ela perguntou se eu queria vinho e então me mostrou a foto do antigo namorado, um professor de história que segundo ela gostava muito de jazz, embora gostasse também de outros tipos de música, ele gostava sempre de várias coisas ao mesmo tempo. Ela de uma coisa de cada vez, por isso eles não se deram bem e acabaram terminando. Ela me perguntou do que eu gostava.”

“Agora eu era um homem com um propósito de vida. Isso fez eu me sentir bem.”

"... a gente nunca se recupera. tem um momento que você deixa o sangue esfriar. tem um momento que o vulcão fica extinto, mas ele tá lá como um animal adormecido e quando ele ronca você pode sentir a imensa raiva contida. É como um vulcão. Não acredite que ele está realmente extinto. A gente nunca se recupera."
 

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