“O lance de ficar perambulando a noite sem destino
remete diretamente a uma certa aura blues. Um troço romântico. Não era o meu
caso. Eu era só um rockeiro amargurado, que havia acabado de descobrir que era
um dos sujeitos mais solitários dessa porra de universo. Sempre tive notória
aversão por companhia. Ainda não havia entendido que os outros também sentiam o
mesmo, mas no caso deles, sua aversão se restringia apenas e tão somente a
minha desagradável companhia. Estou no limiar de algo que chamam por ai de “exclusão
natural”. Percebo nitidamente isso quando começo a acreditar no serviço “bem
feito” dos deuses. Todo malogro que é a minha vida e essa minha obsessão em
tentar me tornar íntimo, de dividir os meus problemas, de querer sinceramente acreditar
que eles podem ter alguma importância para alguém de mim.”
“...Entregadores de pizza
são como motoristas de táxi, ascensoristas e todo esse tipo de gente
miseravelmente carente que me mantém afastado de tudo. Gente carente sempre
querendo conversar, sempre querendo falar, não importa com quem. Odeio gente
carente. Odeio gente que chora porque esta sozinho. O homem nasceu sozinho e
passa a vida querendo se inserir. Fazer parte de algo. O grande erro da
humanidade... A cidade mora dentro de mim e me regurgita e me expulsa e me
mantenho longe mesmo estando dentro dela, como Jonas dentro da baleia.”
“Ah, meu caralho. Que porra eu fiz pra merecer isso? Uma
puta que lê Maitena e assiste Sex and City. Vou apelar pra necrofilia. Mortos
não fazem conjecturas. Se um dia já amei alguma coisa, foi esse sentimento de
pânico e o alivio que sinto com ideias suicidas que jamais se concretizarão. Tem
que ser muito romântico para bancar uma ideia suicida por isso permaneço no
limbo quase agradável as ideia. Deito na rede confortável e me deixo estar.”
“Não. Você não faz idéia. Você já deve ter ouvido
falar de demência. Mas certamente não tá ligando o nome a pessoa. Já deve ter
ouvido falar de clemencia, mas certamente acha que vai encontrar algo parecido
nas respostas as suas orações. O subproduto de sua filosofia barata é esse
olhar forjadamente enternecido. Deixa pra lá. Sua tentativa é inútil. Seu movimento
seria patético se não tivessem inventado a palavra constrangimento.”
“Todo homem merece uma garota preparando um chá. Toda a
poesia do mundo consiste numa linda garota fatiando um limão em seis partes
iguais. Bebi o chá pensando no vinho. Bebi seus olhos pensando em ausências e
longas distancias. Algo que cantores pop chamariam de “saudade”. Fico com minha
definições que nunca colocam o pé no chão, que temem o contato firme com o
solo. Meus pensamentos mais pueris são revistados na alfândega .”
“Não é culpa de ninguém. É só o jeito como
embaralharam as cartas.”
“Ela perguntou se eu queria vinho e então me mostrou a
foto do antigo namorado, um professor de história que segundo ela gostava muito
de jazz, embora gostasse também de outros tipos de música, ele gostava sempre de várias coisas ao mesmo tempo. Ela de uma coisa
de cada vez, por isso eles não se deram bem e acabaram terminando. Ela me
perguntou do que eu gostava.”
“Agora eu era um homem com um propósito de vida. Isso fez
eu me sentir bem.”
"... a gente nunca se recupera. tem um momento que você deixa o sangue esfriar. tem um momento que o vulcão fica extinto, mas ele tá lá como um animal adormecido e quando ele ronca você pode sentir a imensa raiva contida. É como um vulcão. Não acredite que ele está realmente extinto. A gente nunca se recupera."
"... a gente nunca se recupera. tem um momento que você deixa o sangue esfriar. tem um momento que o vulcão fica extinto, mas ele tá lá como um animal adormecido e quando ele ronca você pode sentir a imensa raiva contida. É como um vulcão. Não acredite que ele está realmente extinto. A gente nunca se recupera."

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