quinta-feira, 29 de agosto de 2013

No livro Um bom lugar pra morrer - Mario Brtolotto








“O que restou do sagrado

Vai ter uma hora que eu vou achar necessário. Que eu vou querer uma satisfação. Eu sei o quanto vou ser ignorado. Todo mundo é. E mesmo assim, as pessoas entregam suas vidas e suas almas. É claro que tudo tem um preço. Ninguém faz nada de graça. Então o problema é comigo? Eu que não sou chegado em negociações. Que só me refugio num canto de balcão e às vezes me deixo surpreender emocionado. Eu, que aguardo instruções e nunca as cumpro. Eu, que vivo de pequenas lamentações. Eu que não mereço nenhuma satisfação. Eu que sei o quanto posso estar sendo indelicado. Mas eu não nasci afeito a gentilezas, por isso não há porque estranhar meu comportamento pouco cordato. Minha negação de felicidade. Minha queixazinha monótona. Ainda tem humanidade de sobra nessa carcaça renitente. Sei o tamanho de minha insignificância. Mas ainda assim, vai ter uma hora que eu vou ter que sair desse canto seguro do balcão. Vou ter que tomar uma atitude. Vou ter que exigir uma satisfação. E tenho plena consciência do quanto não serei querido por isso. Ouvi dizer que existem maneiras mais agradáveis de ganhar a vida. Mas eu não me mantenho informado.”

“Morte nenhuma me redime
Viver tem sido meu único crime.”

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