“O que
restou do sagrado
Vai ter uma hora que eu vou achar necessário.
Que eu vou querer uma satisfação. Eu sei o quanto vou ser ignorado. Todo mundo
é. E mesmo assim, as pessoas entregam suas vidas e suas almas. É claro que tudo
tem um preço. Ninguém faz nada de graça. Então o problema é comigo? Eu que não
sou chegado em negociações. Que só me refugio num canto de balcão e às vezes me
deixo surpreender emocionado. Eu, que aguardo instruções e nunca as cumpro. Eu,
que vivo de pequenas lamentações. Eu que não mereço nenhuma satisfação. Eu que
sei o quanto posso estar sendo indelicado. Mas eu não nasci afeito a
gentilezas, por isso não há porque estranhar meu comportamento pouco cordato. Minha
negação de felicidade. Minha queixazinha monótona. Ainda tem humanidade de
sobra nessa carcaça renitente. Sei o tamanho de minha insignificância. Mas ainda
assim, vai ter uma hora que eu vou ter que sair desse canto seguro do balcão. Vou
ter que tomar uma atitude. Vou ter que exigir uma satisfação. E tenho plena consciência
do quanto não serei querido por isso. Ouvi dizer que existem maneiras mais
agradáveis de ganhar a vida. Mas eu não me mantenho informado.”
“Morte nenhuma me redime
Viver tem sido meu único crime.”

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