Sei ir a aniversários de crianças e
sorrir junto com todo mundo. Sei acordar cedo todo dia e sair pra trabalhar. Sei
fazer compras no supermercado e escolher os melhores tomates. Sei lavar roupa e
fazer as bainhas das calças do meu marido. Sei assistir televisão e as vezes
até solto um sorriso desnecessário. Mas o que tenho dentro... ah, o que tenho
dentro. Ainda bem que tá dentro, se não andaria por ai assustando a todos pelo
caminho. E a cada um já basta se assustar com os próprios horrores que carrega.
Acho bom que ninguém saiba o que a
gente tem por dentro. As pessoas acreditam no que tem diante de seus olhos, até
eu me enquadro nisso. Talvez aja uma pequena diferença na minha forma de ver
hoje, pois quando olho pro outro sempre penso em quanta coisa pode se ter
abrigada em baixo de um doce sorriso. Claro que não sou a única a pensar nisso,
mas até pouco tempo atrás eu só via ou só ‘admitia ver’ o que estava diante de
mim e sei que muita gente vive assim.
Acho que a gente anda por ai se
achando único e diferente, mas no fundo, somos todos bem parecidos. Pateticamente
parecidos. E o que acontece pra um, acontece pra maioria do bando. Talvez existam
alguns subgrupos, mas nada muito particular.
(imagem do livro 'O mundo de Sofia', de Jostein Gaarder)

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