“Eu
tinha trinta anos. Era um sujeito idealista e romântico, cheio de boas intenções,
convencido de que toda a humanidade se dividia em dois bandos: os bons e os
maus. Eu era da turma dos bons, heroicos, fiéis e abnegados. Enfim, me sentia
muito bem trabalhando como jornalista. Tínhamos todos várias coisas em comum:
éramos machinhos satisfeitos, com o pênis sempre eretos, bons bebedores,
mulherengos, defensores da verdade, da justiça e de tudo isso, respeitadores da
ordem estabelecida. Nós a tínhamos dentro do sangue, como um vírus, e não sabíamos
disso. Formávamos um bom time.
Passaram-se
vinte anos. Daqui olho aquela etapa da minha vida e me assombro de ver como é
fácil alcançar e manter um altíssimo nível de estupidez. Não tenho mais remédio:
agora sou um punhado de dúvidas e incertezas de todo tipo. Às vezes, acumulam-se
tantas que chego à perplexidade absoluta.”
“-
Deus queira que você nunca se veja sozinho. Não imagina como é horrível viver
sozinho. Você tem muita sorte, porque Júlia é uma mulher boa e te ama muito.
Não respondo.
Cada um sabe de si. Prefiro estar sozinho do que mal acompanhado, mas engulo e
penso fugazmente em um revólver e uma bala na testa de Júlia.”
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