terça-feira, 8 de dezembro de 2020
De nascença?
Desço na rodoviária novo rio, com minha pesada bolsa de rodinha e uma bolsa menor de carregar na mão. Chegando ao terminal para pegar o 606 me deparo com uma escada considerável, começo então a me preparar para subi-la com as duas bolsas já que não existia uma rampa. De repente um mendigo que me observava, pega minha bolsa grande diz “deixa que eu ajudo a senhora” e rapidamente deixou minha bolsa no topo da escada. Fiquei um pouco assustada e disse obrigada, mas confesso que por um momento pensei que ele ia pegá-la e sair correndo. Entro então no ônibus pela porta de traz e coloco a bolsa sozinha lá dentro, vale ressaltar que havia várias pessoas e inclusive homens dentro do ônibus observando meu esforço para coloca-la pra cima. Na hora de descer , dois homens arrumados, provavelmente vestidos para trabalhar, descem passando por mim que estou descendo com minha bolsa. Não fazem nada e não dizem nada.
Me lembro de outra situação vivida no ano passado no meu trabalho. Como vocês sabem sou professora e no ano que se passou trabalhei com uma turma de dois anos de idade. Certo dia percebi no chão do pátio da creche um objeto que estava fora do seu lugar, alguns adultos passaram por ele e fizeram que não viram ou não perceberam. Uma de minhas crianças se levanta espontaneamente da mesinha em que está sentada para tomar seu café da manha, vai até o objeto o levanta, coloca no seu lugar e volta pra se sentar.
Esse mistério da vida realmente é um mistério. Tem certos atos, gestos, maneiras que parecem já nascer com a pessoa. Quem pode entender ou ensinar isso a alguém?
Sexo
Por que perdi tanto tempo nessa vida sem transar??? Muita
burrice, esse é um trauma que vou levar comigo para o caixão. Idiota essa
religião que me privou de aproveitar o máximo de prazer que o corpo humano pode
ter. Pelo menos máximo de prazer com pouco dinheiro e poucos recursos. Agora
estou eu aqui com trinta anos nas costas, tendo estado virgem até os 22 e só
tendo conhecido um pau na vida. Puta sacanagem. Tantos prazeres deixei de
viver, deixei de sentir. E não venha me dizer “melhor assim, com um só parceiro,
você não tem como dizer se ele é ruim já que não tem com o que comparar”. O
problema é justamente esse. Se esse sexo que faço com ele já é tão bom, imagina
se existir algo melhor ainda? Haaá.... Já basta tantos prazeres da vida de que
sou privada por não ter dinheiro, por não ter nascido em família abastada, por
ter nascido brasileira. Sexo é bom de mais. Não sei como tem gente que consegue
viver sem isso. Desabafo sem objetivo.
Óculos cor de rosa
Hoje chorei de vergonha da minha mediocridade, da minha pequenes. Nem me conheço, vim até aqui achando que eu valia a pena pra alguma coisa. Sou insignificante e não sei nem de mim. Porcaria de vida que vem levando a gente pra onde bem quer. Não me diga que posso escolher entre isso ou aquilo. Não posso, parece que alguém já tomou as decisões por mim, eu só tenho que andar na linha e fazer o que esperam que eu faça. Mas nem isso tô conseguindo. Essa linha nunca me agradou, mas antes eu me enganava, achava que a seguindo chegaria ao lugar certo e perfeito. Pura enganação. Tô nessa linha desde que nasci, e cadê esse lugar certo que não chega nunca? será que só no fim da vida? no ultimo suspiro agonizante? quem inventou essa merda toda, e por que eu acreditei? escola de merda que serve pra enquadar a gente e nos deixar olhando para mesma direção. Como se essa direção fosse certa ou boa. Escola de merda, que se a gente não participa dela, as coisas ficam piores ainda.
Eu quero meu óculos cor de rosa de volta. Quem roubou?
Feios, bonitos, dentro e fora dos padrões
Tem essa
coisa na nossa sociedade, a valorização exacerbada da aparência. Claro que tem
coisas que contam na aparência, alguns detalhes dela revelam ou te dão uma dica
do que se tem por dentro. Mas essas coisas que contam não estão necessariamente
ligadas ao físico da pessoa e sim na forma como se veste, se cuida , no corte
de cabelo, na barba que se tem ou não. Mas a nossa sociedade tente a avaliar as
pessoas, pelo formato do rosto, do nariz, da bunda, do peso. A vida da pessoa
feia não deve ser muito fácil, e é claro que como tudo na vida, ser feio trará
ônus e bônus. Mas as vezes fico vendo as pessoas na rua, no banco, no ônibus,
no metrô e como o comportamento das pessoas é diferente quando entra uma pessoa
tida como bonita na nossa sociedade. Os olhares se voltam, as pessoas chegam um
pouquinho pro lado pra dar lugar pra esse bonito sentar. Portas se abrem pra
essas pessoas. Sei de pessoas que “subiram” em cargos em suas empresas só por
serem bonitas. E não estou falando de transar com o chefe pra subir. Se tiver
uma mulher bonita e uma feia, com a mesma formação concorrendo a um cargo,
podes crer que a bonita vai entrar. Estou falando a grosso modo, claro que
outros fatores contam ponto, mas num geral as pessoas querem ficar perto de
gente bonita. Eu que tento ser desprovida
de preconceitos me pego pensando coisas
horrendas como “não vou lá, tem muita gente feia”. Que vergonha admitir isso,
mas as vezes eu penso assim. Alguém compartilhou dia desses no face que “gente feia é igual a gente bonita, só que
feia”, soa engraçado, mas é a pura verdade. Gente feia tem as mesmas
necessidades, talvez algumas a menos por já terem se acostumado com a falta de
beleza. Digo isso, porque geralmente a pessoa bonita já espera por certos
elogios e por certos olhares quando vai aos lugares e quando posta fotos. Já a
feia nem tanto, anda mais desprovida dessa expectativa e acaba não tendo essa
necessidade.
Eu sei que
existem padrões e padrões de beleza. Eu sei que quem ama o feio bonito lhe
parece. Eu sei que tem gente que eu acho feia e você pode achar bonita. Eu sei
que aparência não é tudo. Sei de todas essas coisas. Não sou padrão de beleza
nem de inteligência. Não sou uma pessoa bem resolvida. Talvez esteja eu aqui
falando da vida da pessoa feia porque eu seja uma pessoa feia. Me considero uma
pessoa dentro dos padrões básicos. Tenho uma prima que mora longe e dia desses veio
me visitar e no sábado foi a um show, ela é uma pessoa considerada bonita nos padrões
da nossa sociedade. Um metro e sessenta e pouco, loira, cinturinha de pilão,
bunda grande, corpinho de violão. Fui leva-la ao ponto de ônibus. Cristo amado,
vocês não tem noção de como foi. Todos os homens do caminho olhavam para ela, o
cara que passou de bicicleta, o cara que atravessou a rua, o taxista que passou
dirigindo, o cara que passou de mão dada com a namorada, ate algumas mulheres
olharam também. Tive uma sensação de ser invisível. Eu até queria ser invisível,
mas não assim. Pior foi eu falando com minha mãe ao telefone contando
essa história e ela dizendo ‘minha filha, mais vale é o que a pessoa tem no coração”,
foi triste ouvir isso.
Fiquei
pensando como deve ser a vida da pessoa bonita. Ter os olhos voltados pra ela o
tempo todo. Até tive um tempo quase
assim quando eu era adolescente, a juventude também atrai os olhares. Tem um ‘quê’
de coisa boa em ter os olhos em você, afinal é atrás disso que tanta gente
vive, o bbb taí pra provar isso. Me lembro de estar em ponto de ônibus e os
caras pararem pra oferecer carona. Me lembro de taxista me oferecendo carona.
Meu primeiro namorado foi um cobrador de ônibus que me via descer todo dia no
mesmo ponto e no dia de folga ficou andando por ali pra ver se me via. Que
coisa tosca, nem acredito que aceitei namorar com ele. Mas se eu fosse feia não
teria passado por essas histórias. Ou talvez
teria, não tenho como saber. Hoje com trinta anos, alguns sinais do tempo
começando a aparecer já não atraio tantos olhares. Mas tá bom, não acho isso
tão ruim assim. Vivo lutando pra perder
peso, e esse ano disse pra mim mesma que iria entrar pra uma academia, embora
não goste nadinha . Fico me convencendo que é por saúde. Mas acho que nem é, na
verdade devo estar em busca da jovialidade perdida, da beleza lá de trás, como
se ela pudesse ser recuperada. Isso também é o que a grande maioria tá em
busca. Tanto botox, plásticas, malhações... tudo em busca de coisas que não
voltam mais. Ai me vejo criticando a sociedade, as pessoas, e quando penso nessas
coisas vejo que sou igual a elas. Igualzinha.
Pra namorar e
casar nunca me imaginei ao lado de um
cara mega bonito. Posso estar enganada,
mas sempre tive a impressão de que os bonitos sabem que são bonitos e por isso são
um pouco esnobes. To falando daqueles bonitos, lindos, meio modelos. Talvez
seja só um pouco de insegurança que já tinha comigo. Medo de ouvir as pessoas dizerem
“esse cara é muito bonito pra essa menina”, sempre preferi o contrário. A vida
foi rolando e acho que casei com alguém assim como eu, dentro dos padrões de
normalidade.
Sei que toda minha fala aqui esta carregada de preconceitos. estranho seria se não estivesse.
Me perdi, nem
era isso que eu queria falar.
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