terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Dia bom




A gente acorda escova os dentes, sai de casa, enfrenta ônibus cheio, metro cheio, luta contra o sono, fere a natureza do corpo que pede por mais cama, chega no trabalho tem que olhar pra todas as caras feias das pessoas, a gente sorri, dá bom dia, se faz de simpática e entra na rotina do dia. Não posso reclamar do meu trabalho e do local onde estou, a vida não foi das piores comigo. As vezes ela me sorri. Tenho meus estresses e as vezes penso em mudar de profissão, mas a verdade é que eu gosto das crianças. Entro na minha salinha, meu mundinho, e as horas que passo ali, mesmo nos dias mais cansativos, mesmo nos dias de mais problemas, e de cabeça cheia, ali tudo some. Talvez eu até esteja usando meu trabalho como uma forma de escape. Mas no fim acho que todos o usamos assim, a cabeça ocupada lá faz a gente parar de pensar na dureza da vida aqui fora. Quando tô lá dentro da sala cantando uma música boba, brigando com quem tenha mordido o outro, ensinando a dividir, emprestar, a fazer cocô no vaso, a não machucar o amigo, por um breve momento até parece que tudo tem sentido. Dizem que tudo o que realmente vale a pena na vida se aprende lá, na educação infantil.
Hoje estou em um dia otimista. Vou escrever um texto no dia em que me vierem à cabeça todas as coisas negativas relativas ao trabalho com educação infantil . Pode ter certeza que nesse dias o texto será bem maior. Ainda bem que os dias 'positivos' também existem.

Coração duro




O coração da gente vai ficando duro numa cidade como Rio de Janeiro. Já fui bem mais sentimental. Hoje de tanto ver certas cenas e acontecimentos, sinto como se tivesse criado uma resistência que me impedisse de amolecer diante da maioria das circunstâncias.

Terça-feira. Uma tarde calma e fresca. Minha campainha toca, vou correndo atender pensando ser o carteiro. Um senhor dizendo de forma muito educada morar em Saquarema, e ter vindo ao Rio receber um dinheiro que lhe deviam por ter feito uma obra em uma casa aqui perto. Contou-me que coloca forro em casas, e combinou com esse bendito morador aqui das redondezas de vir receber seu dinheiro por um serviço prestado recentemente. Chegando a casa do bendito cujo, recebeu o recado de que viajaram pra São Paulo e não deixaram nenhuma parte de seu dinheiro, como tinha vindo sem dinheiro pra volta, estava agora de porta em porta pedindo uma ajuda para retornar a sua casa. Dizia ele “veja bem, agora estou eu aqui, um senhor de sessenta anos, pai de dois filhos, tendo que pedir de porta em porta por uma ajuda para retornar ao meu lar”. 

Não sou muito boa em analisar essas situações e nesse caso em especifico fiquei totalmente em dúvida. Ele não estava sujo e nem parecia pedinte de rua, tinha os olhos mais azuis que já vi de tão perto. Porém em seus olhos pude perceber aquela coisa própria que aparecem nos olhos de quem bebe. Sabe aquela coisa estranha que você vê nos olhos de quem bebe? Sabe quando você olha nos olhos da pessoa, e ela pode estar sem falar ou fazer nada, mais ainda assim você vê que tem alguma coisa em seus olhos e que você não sabe que nome dá? Os olhos azuis dele eram assim. Tenho um tio muito querido que em minha infância aparecia de surpresa lá em casa e por vezes, mesmo eu sendo pequena já via em seus olhos que não era “exatamente” ele que estava ali (ou talvez, aquele sim era exatamente ele). Fiz as devidas perguntas, se queria ligar pra esposa, se queria comer e então catei minhas moedas que tinha em casa e lhe dei cinco reais pra ajudar na passagem, passagem esta que segundo ele custava vinte e sete reais e ainda lhe faltavam dezesseis reais. Ele pegou o dinheiro e foi na casa ao lado tocar a campainha para continuar pedindo dinheiro.

Fiquei eu aqui pensando em tudo isso. Se era verdade tudo que ele disse eu deveria ter tirado dinheiro de onde não tinha pra ajuda-lo a chegar em casa. Os cinco reais que dei, foram só pra MINHA consciência não ficar tão pesada. Se era mentira: coitado. Ou talvez nem tão coitado assim. Talvez ele esteja se achando um esperto por tirar dinheiro das pessoas contando histórias comoventes. A gente tem padrões muito diferentes pra se colocar em lugar de julgar as atitudes alheias. É fácil dizer que era um beberrão, um vagabundo, assim eu já tiraria de mim o “poder” de ajuda-lo. Digamos que ele faça esse teatro todo pra poder comprar bebida e encher a cara, isso também seria um trabalho, passar de porta em porta contando historinha, gastando saliva. Se é a forma que ele arrumou pra levar essa vida dura, quem sou eu pra dizer alguma coisa. Cada um faz o que quer e cada um acredita no que quer. Quem estabelece as regras? Quem estabelece os parâmetros?

Apaixonante





Sei lá porque, mas acho que a fraqueza masculina, quando admitida, é algo excitante. Tem aquelas que se atraem por homens fortes, imponentes, donos de si  e de toda verdade. Eu não sou uma dessas. Sabe aquele homem aparentemente normal, que você vê no metrô, na rua, no shopping? Nessa hora a beleza independe.. Não sei se já te aconteceu de poder desvendar um cara desses, mas  em algumas circunstâncias é possível conhecer a pessoa por dentro, as coisas que ela pensa, que as motiva pra depois conhece-la por fora. É uma experiência diferente e excitante. Ocorre quase que um envolvimento de “almas”, talvez não de almas e sim de alma, pois nem sempre a reciproca é verdadeira.
Homens, mais que as mulheres, são criados para vencer, para serem fortes, para serem provedores. E muitos levam a vida inteira vestindo isso que lhe ensinaram. Alguns , sei que apenas não param  pelo caminho, para não pensarem e não darem de cara com sua demasiada condição humana fraca e perecível, esses não me atraem, vivem por viver, vão levando suas vidas, trabalhando pra “botar comida na mesa” e acham que estão fazendo grandes coisas. Gosto daqueles que param pelo caminho, daqueles que se olham pra dentro e em um processo longo e continuo vão se enxergando, se vendo, se despindo e se admitem simples pessoas, fracas pessoas. Tem coisa mais bonita, atraente, cativante que ver um homem feito chorar ?
Já li um texto do Rubem Alves ha um bom tempo atrás e não me lembro onde, em que ele falava dessa sensação de ter alguém frágil em sua mão, em sua dependência. Que fique claro que não estou falando de um homem preguiçoso, frouxo e que queira ficar na aba de alguém ou de alguma mulher. Tô falando daquele que aos olhos comuns, é um cara forte e independente. Mas que quando desvendado, quase que sem querer, como se você achasse seu diário de cadeado, guardado num baú a chave e pudesse ler por alguns minutos enquanto ele não vem e começasse a descobrir  o que se passa por dentro dele. Conhecer um homem dessa forma, não é coisa fácil. Você pode conviver por anos e ser surpreendida com detalhes que nunca imaginou existir. Acho mais fácil nascer o amor, a compaixão, a parceria por um homem assim.