O coração da gente vai ficando duro numa cidade como Rio de
Janeiro. Já fui bem mais sentimental. Hoje de tanto ver certas cenas e acontecimentos,
sinto como se tivesse criado uma resistência que me impedisse de amolecer diante
da maioria das circunstâncias.
Terça-feira. Uma tarde calma e fresca. Minha campainha toca,
vou correndo atender pensando ser o carteiro. Um senhor dizendo de forma muito
educada morar em Saquarema, e ter vindo ao Rio receber um dinheiro que lhe
deviam por ter feito uma obra em uma casa aqui perto. Contou-me que coloca
forro em casas, e combinou com esse bendito morador aqui das redondezas de vir
receber seu dinheiro por um serviço prestado recentemente. Chegando a casa do
bendito cujo, recebeu o recado de que viajaram pra São Paulo e não deixaram
nenhuma parte de seu dinheiro, como tinha vindo sem dinheiro pra volta, estava
agora de porta em porta pedindo uma ajuda para retornar a sua casa. Dizia ele “veja
bem, agora estou eu aqui, um senhor de sessenta anos, pai de dois filhos, tendo
que pedir de porta em porta por uma ajuda para retornar ao meu lar”.
Não sou muito boa em analisar essas situações e nesse caso
em especifico fiquei totalmente em dúvida. Ele não estava sujo e nem parecia
pedinte de rua, tinha os olhos mais azuis que já vi de tão perto. Porém em seus
olhos pude perceber aquela coisa própria que aparecem nos olhos de quem bebe.
Sabe aquela coisa estranha que você vê nos olhos de quem bebe? Sabe quando você
olha nos olhos da pessoa, e ela pode estar sem falar ou fazer nada, mais ainda
assim você vê que tem alguma coisa em seus olhos e que você não sabe que nome
dá? Os olhos azuis dele eram assim. Tenho um tio muito querido que em minha
infância aparecia de surpresa lá em casa e por vezes, mesmo eu sendo pequena já
via em seus olhos que não era “exatamente” ele que estava ali (ou talvez,
aquele sim era exatamente ele). Fiz as devidas perguntas, se queria ligar pra
esposa, se queria comer e então catei minhas moedas que tinha em casa e lhe dei
cinco reais pra ajudar na passagem, passagem esta que segundo ele custava vinte
e sete reais e ainda lhe faltavam dezesseis reais. Ele pegou o dinheiro e foi
na casa ao lado tocar a campainha para continuar pedindo dinheiro.
Fiquei eu aqui pensando em tudo isso. Se era verdade tudo
que ele disse eu deveria ter tirado dinheiro de onde não tinha pra ajuda-lo a
chegar em casa. Os cinco reais que dei, foram só pra MINHA consciência não
ficar tão pesada. Se era mentira: coitado. Ou talvez nem tão coitado assim.
Talvez ele esteja se achando um esperto por tirar dinheiro das pessoas contando
histórias comoventes. A gente tem padrões muito diferentes pra se colocar em
lugar de julgar as atitudes alheias. É fácil dizer que era um beberrão, um
vagabundo, assim eu já tiraria de mim o “poder” de ajuda-lo. Digamos que ele
faça esse teatro todo pra poder comprar bebida e encher a cara, isso também
seria um trabalho, passar de porta em porta contando historinha, gastando
saliva. Se é a forma que ele arrumou pra levar essa vida dura, quem sou eu pra
dizer alguma coisa. Cada um faz o que quer e cada um acredita no que quer. Quem
estabelece as regras? Quem estabelece os parâmetros?

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