terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Que venham os tigres! - Cecília Marazano




“Os tigres me encontraram
E eu não me importo mais.”
Charles Bukowski

Já subi em árvores bem altas pra fugir deles. Já me escondi em buracos bem profundos pra que eles não me encontrassem. Já passei merda em todo o corpo como forma de afastá-los pelo cheiro. Fiz tudo que me ensinaram, da forma que me ensinaram. Não sei, mas acredito que em outros casos, esses tigres já teriam ido embora e tentado buscar outras ‘presas’. No meu caso, esses tigres parecem ser meus. Continuam tentando me pegar independente do que eu faça, rosnam pra mim com uma selvageria tão grande que eu fico imobilizada, sem poder de ação alguma.

Hoje me pergunto porque fugi deles por tanto tempo. Será que eu queria preservar a minha vida? Se era isso que eu queria, pra que que eu queria? ‘Preservar’. Aprendi que a vida devia ser ‘economizada’. ‘Guardada’. É justo nessas intenções que a vida se perde, se esvai.

Não sei bem se optei por deixar que os tigres me encontrassem ou se foi em um momento de descuido que eles me encontraram. O encontro primeiro não foi muito amigável e simpático. Me machuquei bastante, doeu. Mas percebi que eles não queriam me matar por completo, só queriam matar um pouco de mim. O convívio com eles não é impossível. Sei que são selvagens e que por isso estou sempre propensa a ser surpreendida e até machucada por eles. Mas quer saber? Não me importo mais. A dor tem seu prazer. E uma mordida aqui e outra ali é melhor que não sentir nada.

Os tigres podem ser meus amigos. Até quando me machucam podem ser meus amigos.

Repetição




Admiro as pessoas que vão sempre até o fim nas coisas, sejam elas quais forem. Admiro pessoas que continuam se interessando pelos mesmos assuntos sempre. De verdade. Não fui dotada desse poder, não sei se foi falta de amor (ou sobra), falta de danone na infância, ‘Intelecto’ pouco estimulado, mas acho que alguma coisa não deu muito certo em mim. Todas as coisas me cansam. Fico fatigada delas. Até mesmo quando penso que achei algo que vou amar até o fim, com o passar dos dias, a coisa vai esmaecendo que nem bijuteria supostamente ‘banhada a ouro’. Até alguns anos atrás pensava eu ‘é só com isso’, da próxima vez vou até o fim. Mas o tempo foi passando e fazendo uma releitura, percebo claramente que já falei ‘foi só com isso’, mais de vinte vezes e continuo falando. Não que eu desgoste das coisas, mas elas simplesmente não ficam ocupando minha cabeça e meus pensamentos.
Tem gente que sabe exatamente o que quer, digo isso tanto relacionado a amor, profissão, hobbies, religião e tudo o mais. Por que eu não sou assim?
Algumas coisas, diante de decisões passadas que tomei, acabo me sentindo obrigada a pensar sempre no mesmo assunto. Minha profissão é um exemplo disso. Até poderia tentar outra coisa a essa altura do campeonato, mas sinto que em poucos anos isso iria acontecer de novo. E também não estou disposta a enfrentar uma longa rotina acadêmica novamente pra então seguir outro rumo. Já que investi tantos anos em formação nessa área, até por comodismo continuo por aqui mesmo. Mas não posso dizer, como vejo colegas dizendo por ai “amo meu trabalho/profissão”.  Até gosto dele, tenho momentos de prazer e alegria, como meu arroz e feijão através dele, mas confesso que as vezes ele me cansa e tenho vontade de chutar o pau da barraca e viver de migalhas do marido, da mamãe, ou mesmo virar mendiga. Suicídio e virar moradora de rua são sempre uma opção presente, mas seria uma merda se eu cansasse de virar moradora de rua e não tivesse pra onde ir, ou se eu me matasse e cansasse do outro mundo e não tivesse como voltar (caso ele exista).  Mas o trabalho ainda tá dando pra levar, e já que não decido por outra coisa, mesmo que não desse pra levar eu teria que leva-lo mesmo assim.
As outras coisas todas vão se indo... até permanece um carinho no meu coração por elas, mas não na mesma intensidade e querer de antes. Não sei se muitas pessoas são assim. Mas deve ter um grupo no mundo que seja assim, me imaginar única em algo seria pretensão demais.

Medo





A vida é muito injusta pra mulher. Por que tem que ser assim? A gente transa, ele goza dentro e quem engravida sou eu. Se tiver que tomar a pílula do dia seguinte, tem que ser eu. Se nada der certo é dentro da minha barriga que vai crescer um bebê.  Eu com tudo isso na cabeça e mesmo assim o filho da mãe consegue deitar e dormir depois dessa transa, mas eu bem sei porque que pra ele é tão fácil. Um filho é a morte de toda fantasia, principalmente pra mulher. Como vou deixar tudo pra trás e virar uma viajante pelo mundo tendo filho pequeno? Como vou poder ler um livro ou dormir no metrô com um bebê no colo? Crianças demoram anos pra crescer. Como poderia ajudar uma criança no dever de casa se nem lembro mais da matemática básica e nem quero lembrar? Como não passar as tardes na internet mesmo estando com vontade? Como viver com uma obrigação constante de cozinhar, lavar e passar? Como ficar dias sem poder pintar as unhas? Que escravidão! Não posso com isso! Imagine viajar pra casa dos meus pais com um bebê no colo? Tenho dores na coluna. E se a criança for feia? como apresentar pra família um filho feio?

Imagina perder a maior parte do meu desejo sexual porque estou com a atenção voltada pra criança? Imagina eu fazendo enxoval, comprando coisinhas e gostando disso? Não quero gostar dessas coisas. Como pegar ônibus em dia de chuva com uma criança pequena? E com quem deixa-la caso fique doente? E se ficar doente, como cuidar?  E se mesmo cuidando ela não melhorar? Não quero pessoas estranhas rindo pra mim ou cedendo lugar no metrô só porque estou com uma criança. Não quero as pessoas mentindo pra mim dizendo que estou linda grávida, nem dizendo “parabéns, Deus abençoe vocês”. Não quero nada disso. Só quero ficar quieta. Gosto de estar sozinha. Gosto de ver o tempo passar sem ter o que fazer. Egoísmo? Tá bom, não nego. Tenho um monte de livro de Bukowski que ainda não li. Não quero trocar essa literatura por “criando meninos / criando meninas”, argth. Será que eu tô?