terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Medo





A vida é muito injusta pra mulher. Por que tem que ser assim? A gente transa, ele goza dentro e quem engravida sou eu. Se tiver que tomar a pílula do dia seguinte, tem que ser eu. Se nada der certo é dentro da minha barriga que vai crescer um bebê.  Eu com tudo isso na cabeça e mesmo assim o filho da mãe consegue deitar e dormir depois dessa transa, mas eu bem sei porque que pra ele é tão fácil. Um filho é a morte de toda fantasia, principalmente pra mulher. Como vou deixar tudo pra trás e virar uma viajante pelo mundo tendo filho pequeno? Como vou poder ler um livro ou dormir no metrô com um bebê no colo? Crianças demoram anos pra crescer. Como poderia ajudar uma criança no dever de casa se nem lembro mais da matemática básica e nem quero lembrar? Como não passar as tardes na internet mesmo estando com vontade? Como viver com uma obrigação constante de cozinhar, lavar e passar? Como ficar dias sem poder pintar as unhas? Que escravidão! Não posso com isso! Imagine viajar pra casa dos meus pais com um bebê no colo? Tenho dores na coluna. E se a criança for feia? como apresentar pra família um filho feio?

Imagina perder a maior parte do meu desejo sexual porque estou com a atenção voltada pra criança? Imagina eu fazendo enxoval, comprando coisinhas e gostando disso? Não quero gostar dessas coisas. Como pegar ônibus em dia de chuva com uma criança pequena? E com quem deixa-la caso fique doente? E se ficar doente, como cuidar?  E se mesmo cuidando ela não melhorar? Não quero pessoas estranhas rindo pra mim ou cedendo lugar no metrô só porque estou com uma criança. Não quero as pessoas mentindo pra mim dizendo que estou linda grávida, nem dizendo “parabéns, Deus abençoe vocês”. Não quero nada disso. Só quero ficar quieta. Gosto de estar sozinha. Gosto de ver o tempo passar sem ter o que fazer. Egoísmo? Tá bom, não nego. Tenho um monte de livro de Bukowski que ainda não li. Não quero trocar essa literatura por “criando meninos / criando meninas”, argth. Será que eu tô?

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